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Literatura humaniza e leva à reflexão, diz escritor

ResumoItamar Vieira Junior, escritor baiano, encerra a Trilogia da Terra com *Coração sem Medo*, obra que aborda o desaparecimento de filhos, tema que atinge principalmente mães das periferias. A literatura, para o autor, humaniza e provoca reflexão, função essencial para compreender realidades marginalizadas. O livro consolida a trilogia iniciada com *Torto Arado* e *Salvar o Fogo*.

Em Coração sem Medo, Itamar Vieira Junior fecha a Trilogia da Terra. O escritor fala do desaparecimento de filhos, tema que atinge principalmente mães das periferias, e defende o papel da literatura de humanizar e provocar reflexão.

Leandro Fioravante
Leandro Fioravante Analista de Mercado de Streaming · 09 de agosto de 2026
Literatura humaniza e leva à reflexão, diz escritor
8.5/10
VereditoEm Coração sem Medo, Itamar Vieira Junior fecha a Trilogia da Terra. O escritor fala do desaparecimento de filhos, tema que atinge principalmente mães das periferias, e defende o papel da literatura de humanizar e provocar reflexão.

Literatura tem poder de humanizar e levar à reflexão, afirma escritor

O escritor Itamar Vieira Junior encerra sua trilogia sobre a terra com o livro Coração sem Medo, que sucede os romances Torto Arado e Salvar o Fogo. Em entrevista à Agência Brasil, durante a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), ele afirmou que a literatura tem o poder de humanizar e levar à reflexão, especialmente ao tratar do desaparecimento de filhos, drama que no Brasil atinge principalmente as populações periféricas.

O que diz o escritor sobre o poder da literatura

Para Itamar Vieira Junior, a literatura tem uma capacidade grande de humanizar. Ele observa que histórias como a de Rita Preta, protagonista de Coração sem Medo, aparecem na imprensa de forma superficial, mas quem trata dos sentimentos e das subjetividades humanas é a arte. "A arte tem o poder de devolver a vida, de humanizar aquilo que parece desumanizado", disse.

Apesar desse poder, a arte não fornece respostas prontas. "Tudo que a arte não faz é dar respostas. Ela nos ajuda a refletir sobre o que está acontecendo. Ela nos incomoda, e é a partir do incômodo que as mudanças vêm", afirmou o escritor.

Coração sem Medo: a história de Rita Preta

Coração sem Medo conta a história de Rita Preta, uma mulher que vive em Salvador e trabalha como caixa de supermercado. Ela tem três filhos e, de repente, um deles desaparece. A partir daí, começa a jornada dela para descobrir o que aconteceu. "É a história daqueles que foram desterrados, que não puderam lutar pela terra", resumiu o autor.

No livro, o desaparecimento ocorre após um desentendimento entre mãe e filho. Com o passar dos dias, Rita percebe que o sumiço pode não ter relação com a briga e se dedica à busca pelo paradeiro do filho. Durante essa busca, ela descobre que a história não começou naquele momento, mas vem de muito tempo antes, e precisa se conectar com seus antepassados e origens.

Desaparecimentos no Brasil: números que o livro reflete

Embora ficcional, o drama de Rita Preta reflete dados reais. Segundo o Painel Estatístico do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça, só no primeiro semestre deste ano o Brasil registrou 43.828 pessoas desaparecidas, média de 242 por dia. Em todo o ano passado, foram 85.232 casos, média de 234 sumiços diários.

Os números, porém, podem não refletir totalmente a realidade, já que muitos casos sequer são notificados. O escritor destacou que o desaparecimento atinge todas as classes sociais, mas é cruel porque se concentra muitas vezes naqueles que mais precisam de políticas públicas do Estado.

A dor das mães nas periferias

Itamar Vieira Junior afirmou que as maiores vítimas do desaparecimento são as mães que vivem nas periferias brasileiras. "Eu sei que o desaparecimento atinge todas as classes, pessoas de todas as origens, mas ele é cruel porque se concentra muitas vezes naqueles que mais precisam e daqueles que mais carecem de políticas públicas do Estado. Esse é um tema que não envelhece e que ainda está à nossa volta", disse.

O escritor também citou a realidade de Salvador, cidade onde vive a personagem. "A nossa cidade, Salvador, infelizmente está cheia dessas mulheres que precisam enfrentar essa história, essa dor. Vivemos em um estado que tem uma das polícias mais letais do país. Essa é uma realidade", afirmou. Ele acrescentou que o crime está conflagrado no espaço urbano e atinge pessoas inocentes que querem apenas viver.

A terra como território e memória

Coração sem Medo compõe a Trilogia da Terra, histórias que se comunicam e falam do direito à terra, um direito elementar que ainda é negado para muitos. O escritor explicou como a terra aparece em cada livro: em Torto Arado, ela é território e pertencimento; em Salvar o Fogo, confronta-se com a violência, a fé e a disputa pelo sagrado; em Coração sem Medo, a história chega a uma Salvador urbana, atravessada pelo deslocamento e pela violência contemporânea.

Para o autor, a terra que une os três livros pode ser entendida como lugar físico, memória ancestral ou aquilo que um povo carrega consigo mesmo quando já lhe arrancaram a própria terra. No novo romance, o corpo do filho desaparecido de Rita é comparado a um território em disputa, como a terra de Torto Arado ou o patrimônio de uma igreja em Salvar o Fogo.

Do campo à cidade: a trajetória de Rita

Em Coração sem Medo, Itamar Vieira Junior transporta a ação do campo para a cidade, diferentemente de Torto Arado. A personagem Rita Preta sai do campo para viver na capital baiana e, em Salvador, descobre que a cidade também é um território desigual, marcado por disputas. "A cidade não pode ser habitada por todos da mesma maneira. Pelo contrário", afirmou o escritor.

Ele lembrou que Salvador cresceu a partir de muitas chegadas: povos originários, invasão europeia, diáspora e, no século 20, o êxodo rural da Bahia. Muitos vieram para a cidade pelo acirramento dos conflitos fundiários ou pela esperança na vida urbana. A história de Rita, segundo o autor, é semelhante à de muitos que aportaram em Salvador fugindo de conflitos no campo.

O papel da literatura na reflexão social

Para Itamar Vieira Junior, a literatura tem a tarefa de provocar incômodos e reflexões sobre a realidade. "Acho que sempre há caminhos. Tudo que a arte não faz é dar respostas. Ela nos incomoda, e é a partir do incômodo que as mudanças vêm", disse. O escritor defende que a arte devolve a vida e humaniza aquilo que parece desumanizado, mesmo que não resolva os problemas concretos.

Perguntas Frequentes

Quem é Itamar Vieira Junior?

Itamar Vieira Junior é o escritor de Coração sem Medo, Torto Arado e Salvar o Fogo, livros que formam a Trilogia da Terra. Ele falou sobre o novo romance em entrevista à Agência Brasil durante a Flipelô.

O que é a Trilogia da Terra?

É um conjunto de três romances de Itamar Vieira Junior que abordam o direito à terra. Cada livro trata do tema de uma forma: pertencimento, disputa pelo sagrado e deslocamento urbano.

Quantas pessoas desaparecem por dia no Brasil?

Segundo o Sinesp, do Ministério da Justiça, a média é de 242 desaparecimentos por dia no primeiro semestre deste ano. Em todo o ano passado, foram 234 casos diários.

Onde aconteceu a entrevista com o escritor?

A entrevista foi concedida à Agência Brasil durante a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em um palco ao ar livre lotado, no Largo do Pelourinho, em Salvador.

Qual é a história de Coração sem Medo?

O livro conta a história de Rita Preta, caixa de supermercado em Salvador, que tem um filho desaparecido. A trama acompanha a busca dela pelo paradeiro do filho e sua conexão com as próprias origens.

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